Cap 1 nascimento de Lully

Cap. 01 

Naquela noite, a Lua nasceu maior do que de costume, como se tivesse decidido espiar a Terra mais de perto. Seu brilho prateado escorria pelos telhados, desenhava sombras suaves nas árvores e fazia o rio parecer um caminho de estrelas líquidas. Diziam os mais antigos que, quando a Lua surgia assim, algo extraordinário estava prestes a acontecer.

Foi sob essa luz que nasceu a criança.

Chamava-se Lully, um nome escolhido sem saber por quê, apenas porque soava como luz e delicadeza. Desde o primeiro choro, a Lua pareceu sorrir — se é que luas sabem sorrir — e o vento trouxe um silêncio respeitoso, como se o mundo inteiro prendesse a respiração. Quem esteve presente jurou que o brilho lunar pulsou no mesmo ritmo do coração da criança.

Lully não era especial por fazer coisas grandiosas logo de início. Pelo contrário, havia nela uma quietude profunda, um jeito atento de olhar o céu, como quem reconhece um velho amigo. À noite, quando todos dormiam, Lully acordava sem medo e ficava observando a Lua pela janela. Não chorava. Apenas olhava. E a Lua, fiel, devolvia o olhar.

Com o passar dos anos, pequenos sinais começaram a surgir. Plantas cresciam mais verdes quando Lully passava. Animais se aproximavam sem receio. E, nas noites de Lua cheia, o ar parecia vibrar ao redor da criança, como se a própria luz estivesse aprendendo a respirar.

A avó de Lully, guardiã de histórias antigas, percebeu primeiro. Certa noite, sentou-se ao lado da criança e contou um segredo que atravessara gerações:

— A Lua não é apenas luz — sussurrou. — Ela é memória. Ela guarda desejos, sonhos e promessas feitas quando o mundo ainda aprendia a ser mundo. De tempos em tempos, escolhe alguém para ouvir essas histórias.

Lully escutou em silêncio, com os olhos refletindo o céu.

Naquela mesma noite, algo mudou. Quando a Lua alcançou o ponto mais alto, um fio de luz desceu lentamente, suave como pena, e pousou na palma da mão da criança. Não queimava, não pesava. Era morno e gentil. Ao tocá-lo, Lully sentiu imagens surgirem: mares antigos, florestas sem nome, pessoas que riam sob a mesma Lua, séculos antes.

A magia da Lua não era feita de feitiços ou palavras difíceis. Era uma magia de conexão. De lembrar o que foi esquecido. De iluminar caminhos quando tudo parece escuro. E Lully, com seu coração atento, fora escolhida para ser ponte entre o céu e a Terra.

A partir daquela noite, a criança passou a entender coisas que não se ensinam em livros: quando esperar, quando agir, quando apenas confiar. Sabia que nem toda sombra é perigo e que toda noite, por mais longa que seja, guarda uma promessa de luz.

E assim, sob o olhar constante da Lua, começou a história de Lully — não como heroína de batalhas, mas como guardiã do brilho suave que mantém o mundo em equilíbrio. Uma criança muito especial, destinada não a brilhar mais que os outros, mas a lembrar a todos que a luz sempre retorna.  

Continua...

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