Cap. 2

 Capítulo II — Os Segredos da Avó e o Mundo Escondido


A avó de Lully chamava-se Selena, e seus olhos guardavam o mesmo brilho prateado da Lua em noites calmas. Ela andava devagar, apoiada em um cajado de madeira antiga, entalhado com símbolos que pareciam mudar de forma quando a luz lunar os tocava. Para muitos, era apenas uma senhora cheia de histórias. Para Lully, porém, era muito mais do que isso.


Naquela manhã, enquanto o sol ainda se escondia atrás das montanhas, Selena chamou a neta para perto da lareira.

— Está na hora de você saber de onde eu venho — disse, com a voz suave, mas firme. — E de onde vem a magia que sente pulsar quando olha para a Lua.

Lully sentou-se aos seus pés, em silêncio atento.

Selena contou que, em sua infância, vivera em um lugar que não aparecia em mapas. Um mundo escondido entre dobras da realidade, onde a natureza era viva de um jeito diferente. As árvores sussurravam conselhos, os rios cantavam canções antigas e o vento carregava mensagens entre os céus e a terra.

Esse lugar chamava-se Lunária.

Em Lunária, a magia não era aprendida — era sentida. A Lua governava os ciclos da vida, fortalecia a terra, despertava dons e mantinha o equilíbrio entre todos os seres. À noite, seu reflexo criava portais de luz entre os mundos, e era assim que as fadas dançavam entre flores luminosas, deixando rastros de pó cintilante no ar.

Selena descreveu as fadas como pequenas guardiãs da natureza, cada uma ligada a um elemento: algumas cuidavam das folhas, outras das águas, outras ainda da luz da Lua. Havia também outros seres mágicos: espíritos das montanhas, animais que falavam em sonhos e estrelas que desciam à terra para ouvir histórias.

— Mas a magia exige respeito — explicou a avó. — Quando esquecemos de ouvir a natureza, os caminhos se fecham.

Com o tempo, Lunária começou a se esconder cada vez mais, protegendo-se do mundo que deixara de acreditar. Apenas aqueles com o coração atento e ligado à Lua conseguiam sentir sua presença. Selena fora uma das últimas crianças a crescer ali antes que os portais se tornassem quase invisíveis.

Ela contou que fora treinada para ser uma Guardadora de Memórias Lunares, alguém responsável por manter vivas as histórias, os segredos e o equilíbrio entre os mundos. Porém, ao crescer, precisou partir — levando consigo apenas lembranças, ensinamentos… e a promessa de que a Lua escolheria outra criança quando fosse a hora certa.

Selena segurou as mãos de Lully com delicadeza.

— Essa criança é você.

Nesse instante, o ambiente ao redor pareceu mudar. As sombras dançaram nas paredes, e um leve brilho prateado surgiu no chão, formando desenhos semelhantes aos do cajado da avó. Por um breve momento, Lully sentiu o perfume de flores desconhecidas e ouviu risadinhas distantes — como se fadas estivessem observando em segredo.

— Lunária ainda existe — disse Selena, sorrindo. — E está despertando novamente. A natureza está chamando. A Lua está chamando você.

Lully sentiu o coração bater forte, não de medo, mas de reconhecimento. Era como se aquele mundo escondido sempre tivesse vivido dentro dela, esperando apenas o momento certo para se revelar.

Naquela noite, quando a Lua surgiu no céu, mais brilhante do que nunca, Lully teve certeza: os portais estavam começando a se abrir outra vez. E sua história estava apenas começando — não só no mundo que conhecia, mas também naquele onde fadas, magia e a luz da Lua ainda reinavam em segredo.

Continua...

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